8 de março de 2017

MULHERES DA AMAZÔNIA

Abandono. Invisibilidade. Diálogo fragilizado da militância. São essas as expressões utilizadas por líderes das lutas das mulheres no Amazonas para situar as condições de vida da maioria das mulheres no interior da Amazônia brasileira. Se nas capitais dos Estados dessa região os obstáculos são grandes para ampliar direitos e assegurar o cumprimento das conquistas, no interior amazônico os impedimentos erguem muros que, literalmente, separam e distanciam as mulheres de uma vida digna.
“As ribeirinhas, as trabalhadoras rurais, não têm política pública”, afirma a ex- metalúrgica Luzarina Varela da Silva, uma das líderes do movimento de mulheres do Amazonas: “Se uma mulher sofre violência na maioria das cidades do interior, ela não tem onde denunciar; também não tem onde fazer mamografia ou exames preventivos porque não existem equipamentos e
profissionais para atender essa mulher. Ou seja, falta tudo na maioria desses lugares e esse tudo é o mínimo”. A realidade torna-se mais perversa porque é invisível para os que vivem nas capitais.

Luzarina Varela é membro do Movimento de Mulheres Solidárias do Amazonas (Musas), da Pastoral Operária (PO), integra o Grupo de Trabalho (GT) de Mulheres do Fórum Brasileiro de
Economia Solidária e o Fórum Permanente de Mulheres de Manaus. Educadora popular e escritora, Fátima Guedes vive no Município de Parintins, região do Médio Rio Amazonas (a 369
quilômetros da capital amazonense, Manaus), vê dificuldades de várias ordens na construção de uma efetiva conexão das mulheres organizadas do interior com os movimentos das metrópoles da Região Amazônica. “Sem essa conexão é muito difícil fortalecer um coletivo regional para ser parte e enfrentar as lutas no plano local, regional e global”. Fátima Guedes é fundadora da Articulação Parintins Cidadã, ativista do Movimento de Mulheres da Amazônia e representante municipal da Marcha Mundial de Mulheres.

Tanto Luzarina quanto Fátima colocam a geografia amazônica como um complicador na luta de organização das mulheres e de presença efetiva nesse processo. São distâncias enormes, acesso complicado tanto o que se refere a meios de transporte quanto a de comunicação, enumera
Luzarina. “Recorremos ao papel para enumerar as reivindicações e buscamos fazer lutas
conjuntas, entrando com ações no Ministério Público para assegurarmos o direito de ser ouvidas. De qualquer forma, nossas companheiras do interior são tornadas invisíveis. O patriarcado, o machismo e o capital neoliberal representado pelos governantes que não têm compromissos nem com mulheres nem com a população ainda detêm força maior”, avalia.

Para Luzarina Varela, no interior da Amazônia, as mulheres estão distantes de ter a titulação da terra onde vivem e plantam exatamente porque muitas delas sequer sabem do direito que têm e as informações não as alcançam. “Nas capitais, mesmo de forma capenga, temos mais instrumentos de proteção. Há ônibus da Justiça itinerante; uma rede de combate à violência; e mais meios de mobilização. Com a enchente dos rios da Amazônia, as mulheres desses municípios mais afetados vivem uma situação muito mais complicada, pois são elas que têm de cuidar dos filhos, dos bichos
de criação, e tentar salvar alguma coisa da plantação. São elas as chefas de família. Eu vivi essa experiência quando criança. É duro. E ainda tem as doenças que chegam com a enchente”.

Romper preconceitos na militância

Um dos grandes desafios das mulheres da Amazônia que se propõem militantes feministas, na opinião de Fátima Guedes, é “romper os preconceitos étnico-culturais impostos às categorias ribeirinhas e ao mesmo tempo reconhecer-se agentes de direitos, territórios soberanos para o
enfrentamento à lógica patriarcal e suas mazelas, amalgamada no amazônida por vários processos colonizatórios”. Para que a ruptura aconteça, Fátima coloca como imprescindível a mulheres a apropriação do conhecimento técnico, político e social necessário na dialetização por correlação de forças nos vários espaços públicos.
A educadora popular cita a construção de células militantes nos municípios vizinhos como uma das estratégias como forma de garantir o mínimo de referencial organizativo e de sustentabilidade político- feminista. “Insistimos em criar oportunidade para desenvolver ações mesmo que focadas nas questões locais. É um esforço para manter o intercâmbio via redes sociais (quando o acesso à Internet nos permite).”
Para Fátima Guedes, há pouco ou quase nenhum reconhecimento nas capitais sobre a militância feminista do interior amazônico, assim como, são limitadíssimos os diálogos. Nesses desencontros, a militante coloca como mais um entrave a vinculação político-partidária de organizações de mulheres das capitais porque “em tese, elas tornam-se reféns do modelo patriarcal excludente e minimalista e, portanto, restringem o diálogo para aquelas que estão fora do cerco. Nesse aspecto, as interioranas são mais “livres”.
Luzarina Varela alerta: “enquanto dou essa entrevista muitas mulheres na Amazônia (e no mundo) estão sendo assassinadas e talvez algumas delas sequer entrem para a estatística do feminícidio; outras morrerão de doenças que já não deveriam mais matar, se a política de saúde pública existisse nesses locais”.
Fátima recorre ao movimento das águas dos rios da região para traduzir as lutas dessas mulheres: “entre enchentes e vazantes; entre silêncios e gritos perdidos nas devastações, as mulheres do interior vão se impondo na difícil tarefa de se fazerem existir e se recriarem como ‘territórios livres, autônomos e soberanos’ nessa Amazônia patriarcalizada.” ■
Manaus (Amazonas, Brasil)
Texto in : Du Levain pour Demain, n° 27