19 de agosto de 2014

O ÓTIMO É INIMIGO DO BOM

Por Claudio de Lima Barbosa

    no século passado, toda vez que uma família norte-americana comprava uma geladeira nova, a antiga era alocada no porão e muitas vezes era usada pela garotada nas suas brincadeiras de esconde-esconde. Muitas crianças morreram por asfixia dentro das antigas geladeiras abandonadas, pois as portas tinham trancas tipo gatilho facilmente acionáveis quando se fechavam. Esse fato lançou um enorme desafio de solução de problema para os fabricantes de geladeiras. Estudos, ensaios e trabalho em conjunto de vários especialistas apontaram como solução um mecanismo de destravamento interno além de um projeto educacional de orientação nas escolas. De fato um projeto complexo que demandou enorme tempo de planejamento e levaria muito mais tempo e dinheiro ainda para ser implantado. Contudo, outra pessoa propôs o uso de imãs nas portas da geladeira que além de garantir isolação térmica adequada era fácil de abrir no caso de crianças ficarem presas dentro dela.

 Tentar fazer o suprassumo de uma vez pode demandar muito tempo e dinheiro e não atender a certas necessidades úteis do aqui-e-agora. No caso da geladeira, o que se pode perceber é que se focou em obter o trabalho ótimo, quando na realidade aquilo que era mais pragmático estava mais próximo de ser feito. Buscar o ótimo muitas vezes pode causar ineficiência do uso de recursos escassos, como o tempo, por exemplo. Em determinados cenários será muito mais assertivo focar na utilidade do que na perfeição. Nesse ponto lembro-me do conceito de kaizen, ou melhoria contínua. Tudo é um processo, faça o bom e aprimore-o ao longo do tempo. Por acaso, a telefonia já nasceu do jeito que ela é hoje ou era menos elaborada?

O jeitinho brasileiro e a armadilha do estado de inércia
           Há quem tenha aversão ao aforismo “o ótimo é inimigo do bom” por acreditar que ele integra o rol de ensinamentos e conselhos medíocres. De longe essa máxima é uma doutrina e tampouco uma ciência talvez seja mais senso comum prático. Particularmente gosto dessa máxima porque faço uma leitura diferente. Evidentemente na primeira olhada, ela parece aconselhar o estado de inércia e letargia, porém isso só será verdade se não se der o próximo passo: a melhoria contínua. 

O “jeitinho brasileiro” é uma característica muito presente na nossa sociedade. Num artigo de Fernando Motta e Rafael  Alcadipani, publicado na Revista de Administração de Empresas – RAE em 1999, o Jeitinho seria o resultado de uma ação usando meios que contrariam leis, ordens, regras, etc. Não gosto de pensar que o jeitinho tenha apenas esse lado negativo de contraversão e crime, mas também que há um sentido positivo e pragmático, pois creio que nós brasileiros temos um talento fantástico para o improviso, para as situações de emergência que exijam respostas rápidas e práticas.           

Assim como todo talento ou mesmo habilidade pode-se aplicá-lo de forma ética ou não. Guardada as devidas particularidades filosóficas, gostaria de enfocar o tal jeitinho no ângulo de buscar boas alternativas paliativas para atender às demandas de urgência e praticidade como, por exemplo, vedar o furo de uma mangueira de óleo de um equipamento ou então usar um palito de dente para marcar o ponto ideal de pressão de uma ferramenta de estampagem ou, ainda, colocar uma esponja de aço na antena da TV para melhorar a imagem. Nesse aspecto somos realmente brilhantes, contudo, costumamos relaxar quando percebemos que a contramedida deu certo. Quando entramos nessa zona de conforto é que o bom se torna medíocre.

Em suma, as soluções para as diversas questões empresariais e até mesmo públicas exigem agilidade na implantação e focar no que é ótimo pode despender muita energia e recurso sem atender as urgências. É fundamental focar primeiro no resultado, porém sem esquecer de evoluir a partir da contramedida bem sucedida forçando a sair do estado de inércia. Para isso precisamos estimular sempre as alternativas simples e criativas; ter disciplina para aprender a resolver os problemas na causa raiz; aprender a fazer e seguir padrões; entender que a perfeição é uma utopia, mas que nem por isso se deve deixar de tentar alcançá-la.  Lembremos do que disse Aristóteles (384-322 a.C.) “Nós somos o que fazemos repetidamente, a excelência não é um feito, e sim, um hábito”.

 Claudio de Lima Barbosa é Administrador de empresas, conferencista e consultor empresarial, especializado em       Engenharia Econômica e Negócios e Engenharia de Produção 

Publicado na Edição 50 da Revista PIM- Rota Interoceânica