1 de junho de 2015

O Recomeço no Japão

Ricardo Juneck, 46, há 20 anos, viu no Japão uma oportunidade de crescer na sua carreira como Chef de cozinha. Fechou um restaurante em Registro (SP), fez as malas e foi encarar o trabalho pesado das fábricas japonesas.

 

Juneck não é o único a arriscar uma vida no exterior. Milhares de outros brasileiros foram para o Japão sonhando em crescer economicamente e conseguir realizar seus sonhos, em um espaço relativamente curto de tempo de trabalho. “Vim com o objetivo de buscar recursos financeiros para investir e ampliar o negócio no Brasil”, afirma o brasileiro. Esses emigrantes são chamados de decasséguis, palavra japonesa que significa, literalmente, sair de sua terra para trabalhar em outro lugar. Antigamente ela era usada para se referir a migrantes internos, que deixavam suas cidades no interior para trabalhar nas metrópoles, mas atualmente se refere principalmente aos descendentes que retornam ao Japão.

A luta dos decasséguis brasileiros completa 25 anos agora em junho. Eles são filhos e netos de japoneses que imigraram para o Brasil no século passado. Os japoneses começaram a chegar em 1908 e foram trabalhar em plantações de café e outras atividades essencialmente agrícolas. Com a mudança da situação política e econômica nos dois países, houve uma inversão no fluxo: os descendentes tomaram rumo contrário de seus pais e avós e passaram a buscar no Japão uma oportunidade de uma vida melhor. No entanto, para estes novos imigrantes, as oportunidades não estavam na lavoura, mas na indústria.

Visto especial

Oficialmente, o movimento teve início em junho de 1990, com a mudança na legislação de imigração japonesa. A partir daquele ano, os descendentes nipônicos ganharam o direito a um visto temporário de longa estada, que permite trabalhar no país. A lei deu início a uma grande onda de imigração – alguns decasséguis já tinham chegado antes, na segunda metade dos anos 80, entrando com visto de turista ou com o passaporte japonês.

No Brasil, o cenário era de inflação alta e desemprego, enquanto o Japão prosperava, com suas indústrias de eletrônicos, de carros e de autopeças em pleno vapor. Faltava mão de obra não-qualificada – o baixo índice de natalidade e o alto grau de instrução dos japoneses contribuíram para a falta de trabalhadores braçais. “Os japoneses queriam suprir essa demanda sem abrir as portas para qualquer estrangeiro. Solução mais rápida que trazer os descendentes não havia, ainda que fosse um tremendo ‘tapa-buracos'”, disse o sociólogo Angelo Ishi, professor da Universidade Musashi e pesquisador do movimento decasségui.

Sonho realizado

Em 2008, o número de brasileiros no Japão chegou a 320 mil. Isso sem contar os que já estavam naturalizados japoneses. Mas com a chegada da crise econômica, os trabalhadores braçais estrangeiros foram os primeiros a serem cortados das fábricas e, desde então, a comunidade brasileira diminuiu bastante. Hoje são cerca de 170 mil brasileiros que continuam acreditando no Japão como trampolim para realizar os sonhos.

Juneck, por exemplo, conseguiu trocar o uniforme de fábrica pelo avental de chef. “Nos finais de semana eu e minha esposa fazíamos salgadinhos e comida brasileira. Os pedidos foram aumentando, fui comprando equipamentos e, com o dinheiro que juntamos na fábrica, abri meu primeiro negócio aqui mesmo no Japão”, disse. Há 15 anos, Juneck não bate mais cartão de ponto. Hoje ele possui uma escola de culinária japonesa e uma empresa de catering. É um dos poucos estrangeiros que possui o certificado de mestre de sushi.

“Ensino até japoneses a fazer a iguaria”, conta ele, que já formou mais de 2,5 mil alunos. O brasileiro continua com o sonho de expandir os negócios no Brasil. “Dou cursos em algumas cidades lá e a ideia é abrir uma filial da minha escola”, afirmou o Chef, que também leciona cursos em Portugal. No ano passado, Juneck foi um dos escolhidos pela Associação Nacional de Sushi do Japão, órgão que certifica os profissionais da área, para representar o país na Copa do Mundo de Sushi, ao lado de outros 20 chefs do mundo todo. Juneck conquistou o 4º lugar na categoria sushi tradicional. “O Japão ajudou a realizar meu sonho. Tenho hoje um filho na faculdade e consegui ser reconhecido na área que investi a vida toda”, disse.

Fonte: http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2015/06/150309_decassegui_25_anos_et